II Encontro - Fortaleza/Ceará
Fórum Nacional passa a ser o grande articulador
entre os comitês, sistemas estaduais e federal de gestão das águas
O Fórum Nacional de Comitês de Bacias, que reuniu durante o
segundo encontro, realizado em Fortaleza, no período de 25 a 28,
representantes de 19 estados brasileiros passa a ser o grande
articulador e interlocutor entre os sistemas estaduais e nacional de
recursos hídricos. Além de possibilitar o intercâmbio de experiências,
o Fórum é apontado por seus integrantes como uma ferramenta de
fortalecimento, em defesa da autonomia dos comitês de bacias
estaduais e o catalisador de discussões que visam a implementação
de uma política nacional que, no mínimo, se aproxime dos textos
legais e dos "discursos" de gestão integrada,
descentralizada e participativa para o setor, frente à nova
realidade: A agência nacional das águas, aprovada pelo Senado.
A aprovação do texto legal sem as emendas encaminhadas ao
Congresso através do Fórum Nacional deixa dúvidas quanto ao
destino dos sistemas. As preocupações dos Comitês de Bacias dos
estados brasileiros, compiladas na "Carta de Ribeirão
Preto", no primeiro encontro, e encaminhadas aos Congressistas,
com manifestações a respeito da ANA foram transformadas em
emendas, não acolhidas no Senado. A versão da Lei sancionada pelo
presidente Fernando Henrique Cardoso não acolheu os anseios dos
representantes dos comitês de bacias, principalmente no item
relacionado à autonomia dos CBHs para gerir os recursos arrecadados
pela cobrança pelo uso da água. Outra questão é falta de relação
entre os planos de bacias, documento que define as prioridades de
investimento de forma participativa no âmbito dos comitês, e a
cobrança.
O presidente nacional da Assemae - Associação dos serviços
municipais de água e esgoto destacou a preocupação das autarquias
de saneamento com relação ao sistema nacional de recursos hídricos,
caso não seja respeitada e valorizada a autonomia dos comitês de
bacias. Para ele "a ANA seguirá o mesmo modelo das demais agências
reguladoras de petróleo e energia e não servirá para implementar
a política nacional", alertou.
O estado de São Paulo participou do encontro com 16 Comitês de
Bacias e expôs, em mesas redondas três experiências consideradas
referência: O fortalecimento da sociedade civil através do Fórum
Estadual e a articulação do segmento junto ao Estado; o Plano de
Bacias e o projeto de educação ambiental Roda d'água, do Comitê
de Bacias do Sorocaba e Médio Tietê.
A primeira apresentação de São Paulo ocorreu no dia 26, com a
experiência do Fórum Paulista da Sociedade Civil, representado por
Maria Luisa Ribeiro, da Fundação SOS Mata Atlântica. A forma de
articulação adotada pelo Fórum Estadual da Sociedade Civil que
possibilitou reverter o que foi considerado como o maior retrocesso
praticado contra o sistema paulista de recursos hídricos (a mudança
das regras do Fehidro, ocorrida em 12/99 e que impedia o acesso das
entidades não governamentais aos recursos do Fehidro). A articulação
rápida dos integrantes do segmento que congrega 320 organizações
não governamentais, com acento nos comitês de bacias resultou no
compromisso do secretário de estado de recursos hídricos,
saneamento e obras, Antônio Carlos de Mendes Thame, de adotar
medidas de curto, médio e longo prazo para restabelecer e efetivar
os mesmos direitos a todos os integrantes do sistema.
A engenheira Jussara de Lima Carvalho, secretária executiva do
CBH-SMT destacou na apresentação do projeto Roda D'água, o espaço
dado à educação ambiental por todos os estados participantes do Fórum
Nacional, nas exposições e debates, como um instrumento de gestão,
obrigatório a todos os comitês, independentemente da situação
dos recursos hídricos, ou seja, de escassez, qualidade e uso
sustentável das águas. Outra experiência paulista ficou a cargo
do CORHI com a elaboração do Plano de Bacias , histórico da
metodologia adotada, relatório zero e o III Plano que está na
pauta de votação na Assembléia Legislativa .
Os representantes dos comitês do estado de São Paulo, reunidos em
paralelo, redigiram em consenso, um documento de avaliação do
encontro, com sugestões ao Fórum Nacional e proposta de pauta para
elaboração da Carta de Fortaleza. Porém, no final das discussões,
já na deliberação dos encaminhamentos finais do evento, o secretário
adjunto de recursos hídricos, Rui Brasil, que participou apenas do
último dia do encontro, fez uso da palavra para pedir cuidado na
forma de encaminhamento das reivindicações ao Presidente da República
e "jogou uma balde de água fria nas discussões", ao
dizer que o Fórum Nacional não tinha representatividade para falar
em nome dos comitês de bacias e estava se comportando como uma ong.
A fala do representante do governo paulista causou enorme
constrangimento e acirrou ainda mais a discussão. Paulo Paim,
coordenador do Fórum Nacional que se sentiu pessoalmente atacado,
concluiu tranqüilizando os participantes ao dizer que
"saberemos redigir um documento que espelhe os anseios dos
organismos de bacias e comitês integrantes do Fórum. Pois, também
tenho muitos anos de experiência em montar, coordenar e melar reuniões.
Não se preocupem", finalizou.
Diante da postura do secretário adjunto de recursos hídricos que,
"certamente não é a do secretário da pasta, deputado Mendes
Thame e muito menos dos representantes dos 16 Comitês de Bacias
paulistas, que trabalharam de forma integrada durante os quatro dias
do evento, com apresentação de críticas construtivas voltadas ao
fortalecimento do sistema estadual de recursos hídricos, pedimos
desculpas a todos e assumimos o compromisso de aprovar Moção em
favor ao fortalecimento do Fórum Nacional como grande articulador e
porta voz dos comitês nas discussões em âmbito nacional",
finalizou a representante do CBH-SMT.
Paulo Paim complementou o posicionamento ao reforçar que "um Fórum
como esse é um incentivador da troca de experiências e o principal
instrumento de fortalecimento dos Comitês de Bacias".